segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A PRIMEIRA GRANDE DECEPÇÃO NA ESCALADA

Após ter feito alguns furos em uma via, comecei a perceber melhor outras vias em que escalo. Rochas basálticas são muito duras, é horrível fazer a perfuração, os furos não podem ser rasos, têm que ter o tamanho do parabolt. Além disso, esses furos precisam ser limpos, não pode ficar o pó da rocha. (Não tinha o conhecimento desses detalhes até a Conquista da via das Aranhas. Conquista supervisonada por Fabinho). É um trabalho cansativo, desgasta. Fabinho perdeu duas furadeiras durante a conquista. Depois vêm as chapeletas, todo cuidado na hora de montá-las é pouco. E é claro, não podemos esquecer, chapeletas antecedem lances de maior dificuldade, é preciso estudar a via. Sinceramente, não sei se vou trabalhar novamente na conquista de vias, o tempo que se gasta na abertura de uma, se escala várias. Admiro as pessoas que trabalham dias e dias na conquista de novas vias. Devemos a eles a nossa escalada e também os riscos que muitas vezes corremos sem saber.
Risco sentido na pele neste final de semana por mim e Aline. Ao escalar
entramos em uma via problemática. A primeira costura é muito baixa, não funciona. A segunda costura faz o papel da primera, e dessa segunda pra terceira costura a corda estica aproximadamente dois metros, um pouco mais talvez. Ou seja, queda nesse intervalo significa, na melhor das hipóteses fator na corda, se não, chão. Sabíamos disso, mesmo assim resolvi correr o risco com Aline que entrou equipando a via. Pra surpresa da dupla quando Aline chegou ao topo da via umas das chapeletas estava solta, há mosquetões fixos para o rapel. Aline rapelou mesmo assim, minha vez de subir. Puxamos a corda, eu vou guiando e com o pulso direito aberto. Havia risco de queda em qualquer ponto da via. Adrenei muito, foi horrível, mas eu precisava ver a via, precisava lutar com minha dor, com meus psicológico. Nessa via são usadas chapeletas de cantoneiras e grampos de ferro de construção que estão enferrujados. Ferro oxida rápido, ainda mais em rochas que estão sempre em contato com a umidade. Pra piorar na hora da subida senti fortes dores no pulso, o trajeto até a terceira costura foi complicado... Depois da terceira costura à via melhora, porém, os lances difíceis continuam longe das chapeletas. Será que vale a pena tanta emoção?
Grampo confeccionado com ferro de construção. Foto: Eliza Tratz

Chegando quase na parada, susto, rochas alteradas, podre mesmo. (Essa via fica em uma antiga pedreira, o corte na rocha atingiu o aqüífero, á água verte para as laterais e parte dela infiltra no topo da via. Eis um dos motivos da chapeleta solta. Talvez no dia em que a via foi grampeada á água não estivesse vísivel, com certeza o conquistador não percebeu). Com o tempo o problema pode piorar, existe a possibilidade de infiltração de água por pequenas fendas até os grampos, estes podem enferrujar sem que percebamos. Seria interessante chapeletas de inox. Não tive coragem de rapelar. Se quer cheguei até a parada. Aline me desceu, eu tinhas as costuras de coringa. Depois, Aline se arriscou pra recuperar as costuras. Admiro sua coragem. Subiu de meio de corda, desclipando as costuras e as clipando novamente, após sua passagem, montou o rapel e desceu. Ficamos desoladas. Veio o silêncio, depois comentamos sobre a decepção.
Acabou a escalada nesse dia. Mais tarde, fui equipar outra via pra uma amiga que está começando, outra briga. Descontei toda minha raiva em outra maldita chapeleta solta e com metade do parabolt pra fora. Não conseguia clipar a costura na posição que eu precisava, a chapeleta girava 360°. Seguia para a direita, precisava do mosquetão direcionado pra esquerda. Deixei a costura ali, subi até a próxima. Não contente, desci de novo. Queria arrancá-la de vez, as meninas não deixaram.

Chapeleta de cantoneira, parabolt exposto. Foto:Eliza Tratz

O que eu faço? Quanta decepção. Mal feitas ou não, é as vias que temos pra escalar, devo parte da minha escalada à essas vias. Essas vias são meu ginásio. Por enquanto, vou continuar correndo esses riscos. Vou tentar falar com os conquistadores para regrampear essas vias. Alguns deles não escalam mais, como mexer em uma via sem a permissão dos conquistadores? Eu não queria ver as vias que fizeram com que eu me apaixonasse pela escalada assim. Estou muito triste.
Pode ser que eu esteja errada ao inferir do risco dessas chapelatas, pode ser que elas não se soltem . Pode-ser que o parabolt com sua metade exposta resista ao tempo e as quedas. Fato é, que outro escalador minutos antes da escalada no domingo nos alertou, se acontecer uma queda corre-se o risco de cair em cima das arestas afiadas das chapeletas de cantoneira, o que pode trazer machucados sérios. E a chapeleta solta? Segura, ou não? Essas vias não são um caso isolado, acredito que por todo o Brasil existam vias assim. Temos sorte de ter uma rocha mais resistente, se fosse arenito com toda certeza, as duas chapeletas soltas, teriam se soltado há mais tempo, ou quem sabe até provocado um acidente. Fora esses problemas, há outras vias interessantes, bonitas. E um novo setor com vias ainda a ser conquistadas de maneira segura.

Vatapá: Chapeletas sem sinal de ferrugem, via grampeada corretamente, os lances difíceis são protegidos.

Espero não ter sido grosseira ao escrever o texto, deixo os comentários abertos para criticas e sugestões. Selecionei duas matérias relevantes que tratam do assunto, pior, relatam um acidente.


http://lojinhadeescalada.blogspot.com/2009/02/sobre-nick-kaczorowski-e-abertura-de.html

http://www.altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=1004

2 comentários:

  1. Vc tem que falar com os conquistadores. Se valer a pena, tem que regrampear a via. Se ela for ruim e os conquistadores aceitarem, arranque as proteções.

    ResponderExcluir
  2. Oi Eliza note a costura na ultima foto.
    O mosquetão clipado na chapa está invertido, com uma girada para a esquerda ele pode abrir o gatilho.

    ResponderExcluir