quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Culpa é de quem?

Interações Sociedade Meio Ambiente: Do desenvolvimento industrial, passando pelo turismo verde e escalada.

ATÉ ONDE VOCÊ É CULPADO?
É fácil ser ovelha, difícil é pensar que em diversos momentos também somos os lobos. As interações sociedade natureza as questões socioambientais e seu reflexo também na escalada.
IMPACTOS DECORRENTES DO DESENVOLVIMENTO
Há mais ou menos 10.000 anos surgiu o homem na superfície terrestre e com ele as transformações mais significativas no espaço, denominadas dentro da ótica Marxista de segunda natureza.  Ou seja, de um espaço apropriado, transformado, representado hoje pelos centros urbanos, construídos a base de muito, ferro, areia e fragmentos de rocha. Os chamados recursos minerais que junto de outros recursos naturais são essenciais ao desenvolvimento.
No entanto, as mesmas sociedades que se desenvolvem com a ajuda destes recursos retirados da natureza, esquecem dos impactos que causam ao meio, pela exploração ilegal e muitas vezes predatória dos recursos disponíveis. Mais que isso, são imediatistas, pensam no lucro, desligam-se do meio físico, e acreditam erroneamente que o desenvolvimento está ligado apenas a uma situação econômica e não a estabilidade dos sistemas ambientais nos quais estão inseridos.
Com essas atitudes tornam a época em que vivemos caótica, marcada por crises sociais, econômicas, políticas, ambientais e morais, as quais são, na maioria das vezes, agravadas pela visão imediatista do lucro e pelo descaso com o meio, com o próprio espaço físico e social (CAPRA, 2001).
FUGA
Diante deste quadro caótico, não raro observamos grupo de pessoas que buscam fugir dos grandes centros através de atividades realizadas ao ar livre que proporcionam um maior contato com a natureza como Ecoturismo, Geoturismo, atividade que busca explorar patrimônios geológicos como, por exemplo, vulcões ou, áreas de importância geológica, como Gran Canyon nos EUA ou os canyons na Serra Geral, ao Sul do País.  Dentro desta proposta de maior contato com a natureza ainda temos as empresas de Turismo de Aventura, que visam além do contato com a natural  a sensação da exposição ao risco durante a prática de esportes como escalada, canoagem e caminhadas, o chamado turismo verde.
TURISMO VERDE
Por vezes, o turismo “verde” é responsável por levar inúmeros grupos de pessoas a locais cada vez mais remotos e com o foco principal direcionado no lucro destinado as agências e parques quando na verdade a preocupação deveria ocorrer também com o meio ambiente que estão dispostos a ‘’visitar’’  .
Neste fluxo crescente de pessoas gente disposta a desfrutar da natureza sem deixar rastros e também gente capaz de acelerar a transformação destes espaços através do turismo desordenado, aquele que acontece sem o mínimo de ética ambiental e de controle.  Não é a toa que encontramos hoje rejeitos até no topo no Everest. Isso prova que a degradação ambiental ultrapassa os limites dos centros urbanos chegando até o topo das mais altas montanhas de nosso Planeta.
Neste contexto, a culpa é de quem? De quem pagou para a atividade de turismo, da agência que atuou como facilitadora do acesso de pessoas despreparadas e mal educadas a transpor o limite sujo e caótico das cidades levando consigo bem mais que a vontade de contemplar o natural, levando também o lixo das cidades, representado por todo tipo de rejeito ali deixado.
Rejeito responsável pela poluição de nascentes, contaminação de rios, ou ainda  queimadas (exemplo: as bitucas de cigarro). Outro impacto menos visível ocorre nos ecossistemas locais em virtude da algazarra das pessoas, que insistem em gritar na trilha, estacionar o carro em locais impróprios, acelerar os motores etc...
Você já parou pra pensar que animais que habitam estes locais podem assustar com o barulho e fugir abandonando seus filhotes. Sim! Isto é possível!  Portanto, cuide afinal quem os visita é você. E este é apenas um dos muitos impactos que você pode causar.
Não é possível ter cidade e ambiente “natural” ao mesmo tempo. Caso contrário permaneça em casa e ligue o canal na Discovery ou National Geographic, você tem conforto e ‘’contato’’ com estes ambientes naturais sem perder o conforto da sua casa. Ou limite-se aos domínios do hotel, ou pousada.
A ESCALADA
Agora redireciono o texto a minha comunidade, a da escalada a qual pergunto. E você escalador? Concorda com isso? Afinal sua parcela de culpa no que tange aos aspectos ambientais também existe.
Você também é um causador de impactos ambientais, a partir do momento que fez o furo na parede pra ali fixar uma chapeleta, você está causando um impacto. Logo, eu e você temos nossa parcela de culpa nessa transformação constante do espaço. É óbvio que estes impactos são muito menores quando comparados às áreas de mineração, atividades industriais, de turismo em massa e até mesmo peregrinações religiosos que costumam deixar velas e ‘’construções’’ pelo caminho.
A CONTRADIÇÃO
Contraditório nessa história é saber que está sendo bem mais fácil hoje conseguir autorização para explorar cavernas através da extração do calcário que colocar um grampo em uma parede de rocha da mesma natureza ou escalar uma montanha se esta encontrar-se em alguma reserva ambiental.
Proibição feita pelo não conhecimento de nossa atividade ou pelo simples fato do escalador não ser fonte de renda para parques nem empresas de turismo pela sua independência. Portanto, o menor vacilo desta pessoa pode desencadear em proibições.
Aos olhos de governantes e órgãos ambientais a escalada é responsável por grandes impactos além de ser uma atividade de risco e responsável por possíveis processos ao responsável pelo controle da área em caso de acidente. Processos que trazem prejuízos seja ao Estado, seja ao proprietário.
Já as empresas de mineração, o turismo desordenado, as propriedades com seus campingsproprietários.
Recentemente o ICMBio embargou áreas no parque São Jorge em Ponta Grossa em vista do proprietário depositar agrotóxicos em áreas de nascente, de não respeitar os limites da vegetação ciliar além do camping irregular, com banheiros a menos de 10 metros do rio.
Há mais ou menos um ano atrás bivaquei no local e fui retirada junto de minha parceira aos gritos e as pressas de baixo da rocha porque um funcionário alegava que era proibido dormir na área sob risco de causar impactos ambientais.
Era carnaval, e eu me abrigava ali justamente pra fugir da algazarra na área do camping. Se quer fazia uso de fogareiros,se quer levava isqueiro ou fósforos. Pode isso?
A DISCREPÂNCIA
Não resta dúvida que esta discrepância é  fruto do descaso político e dos próprios donos das terras, refletindo enorme vilão no cenário ambiental, a politicagem.
Mas, se a escalada causa menos impacto que a mineração e menos impacto que atividades de turismo em massa, por que continua sendo proibida em áreas particulares? Algum palpite?
Provavelmente porque você, assim como as agências de mineração, de turismo, assim como eu, também comete seus pecados. Ou você acha que escalar ouvindo som alto não é impacto?  Que esquecer a garrafa de vinho não é impacto?  Não enterrar suas fezes não é impacto, jogar bituca de cigarro etc... Imagine então chegar ao cumulo de jogar solvente nas águas que acercam a Meca da escalada esportiva da América Latina (Valle Encantado, na Argentina).
Que vergonha! A comunidade escaladora, sendo em sua maioria representada por pessoas com Ensino Superior contribuindo com esse quadro de degradação ambiental a ponto do Valle Encantado ser fechado pela segunda vez, a ponto de vários pontos de escalada aqui no Brasil serem fechados.
CONCLUINDO
Por isso, reafirmo, somos todos em maior ou menor grau causadores de impactos, é da natureza humana transformar o espaço em que vivemos. Entretanto, cabe a cada um de nós minimizar estes impactos.  É nosso dever demonstrar um pouco mais de respeito para com o natural.  Logo, para com a natureza humana.
O que existe a partir da chegada do homem não é só uma segunda natureza é a natureza de uma espécie a mais na Terra, a humana capaz de transformar, degradar e também minimizar os impactos causados em nosso Planeta. E essa capacidade de transformação transcende os limites políticos, dos órgãos ambientais, das agencias de turismo, pois depende, sobretudo de você, do seu comportamento, seja nas cidades, na praia ou na montanha.
LEMBRANDO:
Aos grandes projetos de engenharia  para ser obtida a Licença ambiental devem ser seguidas as resoluções, que propõem a elaboração de Estudos de Impactos Ambientais (EIA) e de Relatórios de impactos Ambientais (RIMA) que objetivam a melhor relação entre os sistemas econômicos e os sistemas ambientais, como a resolução CONAMA, 0001/86;
A sociedade em geral: são direcionadas Leis ambientais, como a Lei de nº. 6.605. de 12 de fevereiro de 1998, conhecida como a Lei dos Crimes Ambientais
A escalada, ou ao turismo de aventura? Um projeto de Lei ainda ambíguo aos meus olhos, Lei 7014/10. 
Por isso, tome cuidado com seus atos, você além de contribuir para a degradação ambiental pode também colaborar para o advento de nosso esporte, para o fim de nossa liberdade nas montanhas. Veja até onde vai sua parcela de culpa. Portanto, reveja seus atos, seja consciente e inteligente a sua punição pode representar o fim da escalada para muitos, inclusive pra você. Não deixe a crise moral, e ética avançar de maneira tão rápida até essas áreas. Veja esses locais como o espaço para contemplar aquilo que não se pode ver nas cidades e que vai além das áreas verdes resumindo-se na palavra LIBERDADE.  
A educação ambiental começa em casa.  E o funcionamento das coisas na sua casa você reflete na sociedade. Não há como conter estes impactos totalmente, mas como certeza existe a possibilidade de diminuí-los.  

... Já ia me esquecendo como Geógrafa e mestre em Utilização de Conservação de Recursos naturais eu não propus as soluções neste texto. Pois bem, a maior solução para estes problemas pode ser resumida em algumas palavras chave: ÉTICA, RESPONSABILIDADE, RESPEITO, EDUCAÇÃO. A técnica nestes casos é empregada quando há falta destes valores.

REFERÊNCIAS

CAPRA. F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 2001.
 CASSETI, V. Ambiente e apropriação do relevo. São Paulo: Contexto, 1995.
 CHRISTOFOLETTI, A. Modelagem de sistemas ambientais. São Paulo: Edgard Blücher, 1955.
 CUNHA, S. B.; GUERRA, A. J. T. Geomorfologia e meio ambiente. 4. ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2003.
 LEGISLAÇÃO DO MEIO AMBIENTE. compilação organizadora para a LTr Editora por HB Textos, São Paulo: LTr, 1999.

3 comentários:

  1. ...é Eliza...realmente falou tudo quando disse que é preciso ter consciência (assim como no consumo por exemplo) e que isso começa "em casa", com ética, respeito...
    É triste ver que muitos que pisam nesses locais (para mim sagrados) não mereciam ali estar.

    A partir do momento que se "desconhece" ou "esquece" esse respeito é que fluem a maior parte dos nossos problemas nesses locais.

    Quanto ao "Salto São Jorge"...quer saber?! Achei muito bom o ocorrido!!! Há cerca de 13 anos atrás, em algumas trilhas próximas ao rio (local de pouco acesso) encontrei nas margens dois "funis"..."fedendo" à "agrotóxicos"!!!

    Agora pense que muitos se banhavam logo abaixo deste ponto, alguns até bebiam a água sem saber...

    Enfim, descaso total.
    Adorei a postagem e do tema que abordou.

    Beijo n'alma .

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  2. Muito bom Eliza! Importante falar sobre o tema.
    Abraços!

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  3. Ótimo texto Eliza! há coisas que devem ser ditas, escritas e divulgadas.
    Abraço!

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