quarta-feira, 9 de março de 2011

A Cachoeira da Fumacinha – se despedindo da Chapada Diamantina


Depois de escalarmos em Igatu era hora de fechar com chave de ouro nossa viagem. Passamos por Mucugê onde visitamos o único cemitério Bizantino das Américas e de lá rumamos para Ibicoara com o objetivo de fazer a trilha da cachoeira da Fumacinha por baixo.
Cemitério Bizantino  em Mucugê. Foto: Eliza Tratz
Cemitério Bizantino  em Mucugê. Foto: Eliza Tratz

Medo:

Eu tive medo de fazer essa trilha, suava frio nas mãos, os riscos de se morrer ali são reais, basta uma chuva na cabeceira pra uma tromba d’água sumir com você caso não visualize bem os pontos de saída.  O cânion é bastante estreito e as saídas se dão em vários pontos por escaladas, leia-se, sem corda. Durante os dias em que estivemos em Lençóis um escalador experiente de lá quase morreu vitima de uma tromba de água, isso me fez sentir mais medo.

Raiva

Chegando em Ibicoara descobrimos que a entrada na trilha só poderia ser feita com guia.  Eu surtei! Disse que não pagaria guia. R$ 100,00 por pessoa. É esse o valor mínimo cobrado por guias que se quer são da região. Guias do exterior, ou de São Paulo que ganham a vida em torno de um turismo nada sustentável. Sim, essa foi uma direta!
   O Rio é de cuidado da Marinha, ainda assim pra poder andar sobre sua laje é preciso pagar. Eu odeio limitações. Odeio esse turismo voltado pra gringa. Odeio saber que é mais barato ir para o exterior que conhecer o próprio país. O moço de olhos azuis que nos informou sobre a obrigatoriedade de guias ainda disse mais, afirmou que esse controle visa à prevenção dos impactos ambientais na área.
No entanto, a entrada na cachoeira para os moradores da Ibicoara é liberada Sim! Eles entram sem guias e carregam para dentro do cânion o que quiserem. Claro, eu já havia me esquecido, essas pessoas não causam impactos ambientais. Contraditório, não? Como diria Clarisse Lispector, eu tenho direito ao grito, por isso eu grito!
Ainda bem que meus amigos sabem fazer a política da bom turista, porque se dependesse da Eliza  teriamos voltado para o Paraná naquela mesma hora.
Malu, Binho e Toco, descobriram que alguns nativos levam o turista até a cachoeira por R$ 75,00 o grupo. Eu não queria pagar nem isso. Se teve um dia que fiquei muito brava, foi esse.
Fui dormir decidida de que não iria para o cânion. Na minha concepção este sistema está todo errado, não suportava a idéia de guias na minha frente. Fiscais do IBAMA eu vi na cachoeira da Fumaça, sabia da existência de postos próximos ao Pati. Isso tudo  me levou a concluir que na cachoeira da fumaçinha, a idéia de guias é voltada só para o desenvolvimento econômico de poucos, e não a verdadeira preservação ambiental do local.
Turismo sustentável ali é utopia. Neste local, o Brasil continua sendo terra de ninguém, onde o potencial turístico é explorado na maioria das vezes pelos gringos, quando os moradores locais deveriam se organizar por um turismo mais justo, dentro de uma idéia sustentável de verdade. Ou melhor, quando de fato, os órgãos ambientais deveriam fiscalizar a área.  

O outro dia.

 Eu acordei azeda, mesmo assim decidi que iria pagar junto ao grupo para um nativo pra conhecer a cachoeira. Fiquei curiosa pra ver a trilha. Além disso, a idéia de passar um dia  na barraca me angustiava. Pensei: Melhor dar o dinheiro para alguém da área que pagar a um gringo inconveniente.

A trilha

São 6 Kms até a cachoeira, sendo o 1° feito por uma trilha de terra que margeia o rio e os outros 5 Kms pagando boulders e algumas mini travessias expostas dentro do canal. A trilha é curta, porém, dura para turistas normais.
Binho-  na primeira travessia sob os poços. Foto: Eliza Tratz
 Malu na segunda travessia - Foto: Eliza Tratz
Eu ...
não queira cair
...

O Voltar atrás.

Voltei atrás em algumas coisas que disse. Turistas sem conhecimento de trilhas precisam de guia na área, não dá forma que acontece hoje, mas é aconselhável que estejam acompanhados de alguém que conheça a área bem. Inclusive, os pontos de saída em caso de tromba d’água.
Eu escalo há algum tempo e por isso percebi o quanto alguns lugares podem ser pavorosos para os visitantes da área. Travessiar em um platô estreito localizado acima de um poço foi algo desconfortável até pra mim. E esse foi só o primeiro crux, haviam boulders em lugares expostos, cair ali, significava se machucar muito.O boulder do buraco, é um 6° com certeza (risos). Pra se chegar à cachoeira há outra travessia, sendo algumas agarras da parede abauladas e bem babadas.

O lugar

Adorei trilhar por caminhos sem demarcação. Não ter fitas de segurança limitando onde devo pisar é ótimo. Um lugar pra se aguçar os sentidos. Ver a cachoeira de 100 mts despencar de um cânion estreito é algo maravilhoso. A natureza da chapada impressiona. Gostaria que a natureza das pessoas que vivem do turismo ali, especialmente as vindas de fora me impressionasse desta maneira também. Pelo menos, a beleza da cachoeira compensou toda a minha raiva da chegada em Ibicoara.

Baixão -Ibicoara - saída da trilha
O cânion - Foto: Eliza Tratz
Foto: Eliza Tratz
A fumacinha - Foto: Eliza Tratz
... Foto: Eliza Tratz
Fumacinha - Foto: Eliza Tratz



Tempo

O tempo normal para se fazer a trilha é 4:30, até 5 horas pra ir, e o mesmo tempo pra voltar. Fizemos em 2 horas a ida, o que me deixou feliz de mais, usamos metade do tempo, ou menos pra fazer as trilhas da chapada.

            Resumo da trip

6.000 Kms rodados.
Mais de 100 kms caminhados, e na metade do tempo!
Escalada da forte em rochas incríveis.
Tristeza por ter perdido uma pasta com mais da metade das minhas fotos. O registro do meu olhar sobre o sertão foi perdido, ficarão pra sempre na minha memória, sinto por não poder compartilhar com vocês.

Agradecimentos

A Malu, que montou o roteiro como ninguém.
Binho, Piloto mor da trip.
A nossa senhora da panturrilha (risos).
E claro, a Formação Serra do Mar. Não é a toa que fizemos todas as trilhas na metade do tempo.























2 comentários:

  1. lugares lindos hein, viagem que quero fazer!
    esse negócio de obrigatoriedade de guia me irrita profundamente também. claro que muita gente realmente precisa de guia, mas não se pode negligenciar o pessoal que prefere não fazer um passeio a fazê-lo com guia! em Bonito me disseram também que é preciso ir a muitos lugares com guia. perdi o tesão de ir pra lá depois de saber disso.

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