segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Caratuva e Itapiroca

Trechos de O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, meu preferido.

                               Eu nunca guardei rebanhos, 
                     Mas é como se os guardasse. 
                     Minha alma é como um pastor, 
                     Conhece o vento e o sol 
                     E anda pela mão das Estações 
                     A seguir e a olhar.
 
Toda a paz da Natureza sem gente 
                     Vem sentar-se a meu lado. 

Mas eu fico triste como um pôr de sol 
                     Para a nossa imaginação, 
                     Quando esfria no fundo da planície 
                     E se sente a noite entrada 
                     Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego 
                     Porque é natural e justa 
                     E é o que deve estar na alma 
                     Quando já pensa que existe 
                     E as mãos colhem flores sem ela dar por isso


O Mundo não se fez para pensarmos nele 
                              (Pensar é estar doente dos olhos) 
                              Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..

 Não acredito em Deus porque nunca o vi.
                       Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
                       Sem dúvida que viria falar comigo
                       E entraria pela minha porta dentro
                       Dizendo-me, Aqui estou!

Mas se Deus é as flores e as árvores
                       E os montes e sol e o luar,
                       Então acredito nele,
                       Então acredito nele a toda a hora,
                       E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
                       E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

2 comentários:

  1. Belíssimo!!! Compartilho com você a poesia, o amor para com a natureza.
    Perfeito o "encaixe" de imagens e palavras....

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  2. Sim...o maior heterônimo de Fernando Pessoa...mas o penúltimo verso achei que não fosse dele...mas é sim. Havia outro poeta ateu também que não me lembro. Tá lindo o post, bjs

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